WELCOME... (e mãos a obra!)
Sejam todos bem vindos ao nosso blog!
Este é um espaço aberto para diálogos, reflexões, troca de idéias, informações e relatos referentes ao processo de criação do espetáculo "Romeu e Julieta", de William Shakespeare.
A montagem da clássica obra do famoso autor inglês está a cargo de alguns alunos de teatro do projeto Oficinas Culturais, de Mauá/SP, sob minha orientação.
Ministro aulas neste projeto há 2 anos... E nesse período, alguns persistentes alunos continuam sua trajetória de aprendizagem artística... Além destes, juntaram-se a nós, durante o ano passado, alguns outros jovens que se desafiaram a entrar numa turma que já estava junto há algum tempo, e que se encaixaram no espírito da coisa de tal modo que não ficaram pra trás.
Estes alunos, divididos hoje em duas turmas (uma nas terças-feiras e outra nos sábados) é o que chamamos "não-institucionalmente" de turmas avançadas.
Pois bem... Basicamente minha idéia é de que, à medida que os alunos permanecem no curso de teatro, que é livre, eu preciso organizá-los em turmas onde todos tenham mais ou menos o mesmo tempo de experiência teatral, mesmo que as idades não sejam tão próximas (as idades variam de 13 a 28, com uma grande maioria de adolescentes). Deste modo, posso avançar na dificuldade dos processos de criação teatral, assim como posso transmitir a eles exercícios mais complexos, além da cobrança se tornar maior.
Enfim... Buscamos sempre novos desafios.
E neste ano entramos num desafio monumental, que é montar Shakespeare.
Nunca o fiz.
Nem como diretor, nem como ator... Nunca.
E, logicamente, nenhum destes alunos o fez... Poucos haviam lido alguma obra do maior dos dramaturgos...
Até este ano!
Shakespeare dá um pouco de medo, a princípio. Talvez o respeito demasiado (embora todo respeito seja pouco) seja o principal gerador do medo, que produz muitas vezes espetáculos solenes e cansativos.
Linguagem complexa, traduções excessivamente rebuscadas, época, enfim...
Muitas coisas nos distanciam de Shakespeare, inclusive alguns alunos universitários de teatro costumam dizer que não o suportam...
E com jovens alunos de teatro que ainda não acabaram o segundo grau? O que acontecerá?
Felipe, tu és louco, disseram alguns.
Quando fizemos a primeira leitura de Romeu e Julieta juro que pensei que eu realmente era.
Mas com muito afinco, me debrucei sobre a obra... Li três traduções diferentes. Escolhi uma, a de Beatriz Viégas-Faria, que achei mais acessível. Improvisamos situações da peça. Cortei trechos, cenas inteiras, adaptei falas e mais falas, suprimi personagens... Reescrevi algumas coisas, baseando-me nas outras duas traduções... Inseri alguns trechos de poemas de Shakespeare, Drummond, Vinícius, Piaf... E cheguei num resultado que é um texto que, modéstia a parte, mantém a poesia desta linda obra sem perder o frescor necessário para sua montagem... Um frescor jovem, pois não esqueçamos quão jovens são Romeu e Julieta, e claro, meus alunos.
Minha idéia é conseguir realizar um espetáculo em que estes jovens atores em formação entendam cada palavra e ação que praticam em cena... E que as cenas possam atingir o espectador num impacto pop(ular) similar aos tempos de Shakespeare... Afinal, ninguém suporta algo chato... Assim como eu não suporto algo sem profundidade!
Eis aí a questão: como ser profundo e ser agradável, não chato, interessante, bonito, enfim, todas as palavras que as pessoas costumam usar pra dizer o que lhes agrada em arte ou não, principalmente quando ela é a arte da representação?
Tarefa difícil, sem dúvida. Mas estamos nos dispondo a tentá-la.
Para tanto, lançamos mão de alguns recursos que visam tornar o espetáculo dinâmico, como a troca constante dos intérpretes e seus papéis (são alguns Romeus, algumas Amas, muuuitas Julietas). E queremos usar isso a favor do espetáculo, brincar com estas trocas em favor da dinâmica da peça.
Além disso, pretendemos destemporalizar a obra: sim, é Verona, sim não existe celular nem Ipod, mas a trilha varia de Mozart à Beatles, passando por um pouco de MPB, com a possibilidade de ser cantada em cena...
Os figurinos misturam as épocas: os longos se misturam ao retrô e ao contemporâneo, e nada impede que espartilhos e coletes possam ser usados com um bom e velho par de All Star vermelho.
Um cenário flexível, móvel, com a qual o ator possa interagir, e não se prender ou se perder.
Cenas coreografadas. Luz poética e intensa.
Ah, Baz Luhrmann fazendo escola!
Enfim... Idéias e mais idéias que pipocam em minha cabeça e de meus 30 guris e gurias (bem mais gurias, aliás!)
Idéias boas, idéias ruins, idéias sensacionais e idéias estapafúrdias... Mas que tem nos ajudado a colocar em contato com Shakespeare e, acredito eu, na direção correta da obra do grande mestre da dramaturgia universal.
Não sabemos o resultado, estamos só começando e nem faço idéia de onde podemos parar...
Mas o desafio já foi lançado, e nós não voltaremos atrás!
Esperamos que no final do processo estejamos tão íntimos e mergulhados em sua obra que possamos chamá-lo de William, meu caro senhor Shakespeare.
E também de amigo, se nos permitir.
Mãos a obra, gurizada!
E MERDA PRA NÓS!
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